
O canal estava espelho. Nenhum motor além do nosso, nenhuma luz além das estrelas começando a sumir no horizonte.
Saímos de Saco da Ribeira às quatro da manhã, com o termo do café ainda quente e a sensação de que o dia inteiro cabia naquelas primeiras horas.
O Márcio falou pouco, como sempre faz quando o mar pede silêncio. Apontou o ponto de pesca, desligou o motor, deixou o barco derivar.
A primeira fisgada veio antes do café. Um robalo de bom tamanho, atacando um swimbait na queda. A vibração da linha cortando a água fria foi a primeira música do dia.
Depois vieram mais três, em sequência, como se o cardume tivesse decidido nos receber. Cada um devolvido com cuidado, cada um agradecido em silêncio.
Quando o sol finalmente subiu por trás da serra, já tínhamos histórias suficientes para a viagem inteira. A última delas, contada depois da última cerveja, no fim da tarde.