
O pai me ligou semanas antes. Disse que queria que o filho aprendesse com alguém de verdade, que respeitasse o mar e os peixes, antes de aprender qualquer outra coisa.
O menino tinha nove anos e os olhos cheios de pergunta. Subiu no barco com o colete maior que o tronco e a vara emprestada que o Márcio ajustou só para ele.
Começamos com isca natural, devagar, no costão. O Márcio explicava cada passo com a paciência de quem entende que o aprendizado é a primeira pesca de verdade.
Na primeira fisgada, vi o pai sorrir mais do que o filho. O menino travou, esqueceu de respirar, e só voltou a si quando o pargo apareceu na superfície.
Soltamos o peixe juntos. O menino acompanhou com os olhos até ele sumir e, quando se virou, já era outro. Mais alto, de certa forma. Mais sério.
Voltamos com pouco peixe e muita história. O pai me abraçou no píer e disse que aquela manhã ia ficar. Eu sei que vai. Esse é o tipo de coisa que o mar guarda.