
Saímos antes do sol, com a previsão dividida entre passar ou desistir. O Márcio leu o vento, olhou o leste e disse: vai render. Foi o suficiente para soltar as amarras.
Navegamos até um parcel que ele guarda na memória como quem guarda um endereço de infância. A água tinha aquela cor profunda, quase preta, que avisa: aqui mora peixe grande.
A primeira corrida nos contou tudo. A vara dobrou em meio segundo, o carretel cantou como sirene e o barco inteiro virou para acompanhar. Não era um peixe qualquer.
Foram quarenta minutos de braço contra músculo. Cada metro recuperado, o peixe devolvia dois. O suor escorria, a mão tremia, e o Márcio só repetia: respira, deixa ele cansar antes de você.
Quando finalmente trouxemos o olhete ao lado do barco, ninguém falava. Só o som da água batendo no casco e o respeito de quem entende o que acabou de acontecer.
Medimos, fotografamos e devolvemos. O peixe voltou forte, com aquele rabo poderoso desaparecendo no azul. A história ficou no barco — e em cada um de nós.